Tradição e inovação: conheça história da “Dona Branca”, queijeira currais-novense que conquistou medalhas no Mundial do Queijo do Brasil

Receber as medalhas no 4o Mundial do Queijo do Brasil, em abril passado, foi sem dúvida um momento marcante na história de Vitor e Isis Pereira, proprietários da queijeira Dona Branca. O reconhecimento foi marcante e ocorreu após a marca redirecionar o foco para o setor de wellness (bem-estar), sem deixar de lado as raízes que originaram a marca.
Um dos produtos, inclusive, não possui açúcar (mesmo sendo um doce de leite), com o sabor adocicado vindo através de um adoçante natural, o eritritol. Ele foi desenvolvido há pouco mais de um ano e o sucesso foi reconhecido na própria premiação.
“É possível produzir no interior do Rio Grande do Norte alimentos artesanais de excelência, capazes de competir nacionalmente com marcas tradicionais de estados historicamente reconhecidos pela cultura do queijo. E trouxemos produtos com o nosso legado, a nossa história. Um produto moderno, mas que não deixa de lado a história que temos”, afirma Vitor Pereira, proprietário da empresa.
História que emociona
A história da Queijeira Dona Branca nasce na memória afetiva de uma fazenda do Seridó, no cheiro do leite recém-tirado, na rotina simples do curral e no olhar atento de uma avó. Foi nesse ambiente que Vitor, cresceu. Primeiro neto homem da família, passou a infância acompanhando a avó, Dona Branca, pela propriedade rural da família em Currais Novos. Via de perto o trabalho na vacaria, a produção artesanal dos queijos e o cuidado quase silencioso que existia em cada etapa do processo.
Anos depois, a vida o levou para longe. Estudou, morou em Natal, fez faculdade e chegou a viver na Austrália. Mas, mesmo distante, existia uma ideia que nunca saía da cabeça: voltar para Currais Novos e viver da própria produção, construindo algo ligado à terra onde cresceu. “Quando a gente vem com um sonho, ele não vem maduro”, disse Vitor.
O projeto que existia inicialmente era produzir os queijos tradicionais do Seridó e seguir a herança deixada pela família. A volta definitiva aconteceu em janeiro de 2019. Naquele momento, Vitor decidiu que queria manter uma tradição e elevar o padrão da produção artesanal potiguar, sem abrir mão das raízes sertanejas que moldaram a história da família. Nascia ali a Queijeira Dona Branca.

O nome escolhido foi uma homenagem com o propósito de manter viva a presença da mulher que inspirou toda a trajetória. O começo foi marcado pelos produtos mais tradicionais da região: queijo de coalho, manteiga da terra e ricota fresca. Tudo produzido com leite da própria fazenda. Mas, desde cedo, havia um pensamento diferente guiando o negócio. A intenção nunca foi competir em quantidade com os grandes laticínios. O foco seria qualidade.
A propriedade funciona quase como um ecossistema integrado. O leite utilizado vem exclusivamente do rebanho da própria fazenda, certificada como livre de tuberculose e brucelose. O manejo é acompanhado de perto pela família, especialmente pelo tio de Vitor, Anchieta Pereira, responsável pela produção rural.
O cuidado começa no plantio da palma e do capim que alimentam os animais. Passa pelo monitoramento diário da qualidade do leite e chega até a fabricação dos derivados. Há análise constante da matéria-prima e um controle rigoroso de todos os processos.
Na fazenda, praticamente tudo conversa entre si. A água utilizada na irrigação, a produção de energia solar, o cultivo da alimentação do rebanho e o beneficiamento do leite formam uma cadeia sustentável que virou uma das marcas da empresa. Mas o grande diferencial talvez esteja em algo mais simples: honestidade no produto.
Durante o período em que viveu fora do Brasil, Vitor observou de perto um comportamento de consumo que o marcou profundamente. Ele percebeu que os produtos mais valorizados eram justamente aqueles que entregavam qualidade sem excesso de industrialização. “Era o básico bem feito”, resume.
Essa ideia passou a nortear a produção da Dona Branca. Produtos sem conservantes, sem excesso de aditivos químicos e feitos com foco em sabor, textura e autenticidade. O queijo minas frescal produzido pela queijeira, por exemplo, virou um dos símbolos dessa filosofia. Um produto simples, mas feito com matéria-prima de alta qualidade e processos artesanais rigorosos.

Como foi o crescimento e a virada de chave
A empresa começou pequena, atendendo inicialmente Currais Novos e Natal. Vitor aproveitava as viagens semanais para levar pessoalmente os produtos até clientes específicos.
Uma virada de chave foi a entrada da Dona Branca em empórios, mercadinhos especializados e estabelecimentos menores, voltados para um público mais exigente e atento à qualidade dos alimentos. Era a entrada no segmento do wellness, com crescimento de quase 8% ao ano.
Enquanto grandes laticínios trabalham com centenas de milhares de litros de leite por dia, a produção da queijeira segue em escala reduzida. Isso permite controle maior sobre cada etapa e uma proximidade maior com o consumidor.
Ao longo dos últimos anos, a empresa expandiu o catálogo de produtos e passou a investir também em inovação. Foi assim que surgiu um dos produtos que mais chamou atenção do mercado potiguar: o primeiro iogurte artesanal produzido no Rio Grande do Norte.
A ideia nasceu depois de uma missão empresarial organizada pelo Sebrae, durante uma visita a queijeiras em Minas Gerais e São Paulo. Ao conhecer experiências de produção artesanal em outros estados, Vitor percebeu novas possibilidades para o negócio.
A parceria com o Sebrae, aliás, aparece como peça fundamental na história da Dona Branca. Segundo Isis Pereira, proprietária da queijeira, o programa Feito Potiguar teve impacto direto no crescimento da marca. A iniciativa valoriza produtos genuinamente potiguares e abriu portas para novas conexões comerciais, consultorias e desenvolvimento de produtos.
“O Feito Potiguar foi um marco para a Dona Branca”, destaca Isis.
Foi dentro desse ambiente de fortalecimento da produção regional que a empresa passou a apostar em novos nichos. Vieram os produtos zero açúcar, as linhas sem lactose e o investimento em genética A2 no rebanho leiteiro, tecnologia que reduz desconfortos digestivos em parte dos consumidores.

Inovação e tradição caminham lado a lado
A Dona Branca não deixou de lado a tradição da família no segmento ao optar por caminhos mais arrojados. O que a marca tem de mais forte são seus valores e eles são mantidos na íntegra, mesmo após escolhas mais inovadoras.
Continua sendo contada a história da família. A história de um neto que decidiu voltar para casa. De uma avó que deixou ensinamentos silenciosos. De uma família que transformou afeto em empreendimento. E de um sertão que insiste em provar que pode produzir excelência.
Na rotina da fazenda, muita coisa mudou desde os tempos de Dona Branca. Os processos ficaram mais modernos, surgiram novas tecnologias e o catálogo ganhou produtos sofisticados. Mas algumas cenas permanecem praticamente as mesmas.
O curral continua sendo ponto de partida de tudo. O leite segue chegando fresco todos os dias. E, por fim, a memória da avó continua presente em cada detalhe.
Num tempo em que tantos jovens deixam o interior em busca de oportunidades nos grandes centros, Vitor fez o caminho inverso. Voltou para Currais Novos porque acreditava que havia valor naquilo que aprendeu ainda menino. E encontrou…
Encontrou no sertão uma possibilidade de futuro. Encontrou na tradição uma oportunidade de inovação. E encontrou, no nome da avó, uma marca capaz de atravessar fronteiras sem perder a essência.
As medalhas conquistadas no Mundial do Queijo do Brasil são importantes. Colocam Currais Novos no mapa nacional da produção artesanal de excelência e ajudam a abrir novos mercados.
Mas talvez o maior prêmio da Dona Branca esteja em outro lugar. Está na certeza de que, em algum ponto entre o curral, o leite fresco e os tachos da produção artesanal, Dona Branca continua presente no produto entregue a mesa do cliente final nos dias atuais.











