Moradores de comunidades rurais relatam impactos negativos após início da exploração de ouro em Currais Novos, aponta pesquisa da UFRN

Moradores de comunidades rurais de Campo Redondo e Currais Novos foram ouvidos por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em parceria com movimentos sociais entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. O resultado foi um diagnóstico sobre qual é a percepção desses que são diretamente afetados pela exploração de ouro realizada no município currais-novense. Diante do relatório final, é possível observar uma série de impactos negativos, como relatos de rachaduras em casas e cisternas, insegurança quanto às moradias, problemas de saúde mental e preocupações relacionadas à poeira e aos tremores provocados pelas detonações.
O relatório foi apresentado e aprovado na Assembleia Popular realizada no último dia 27 de junho, na comunidade São Luiz, em Currais Novos/RN. O estudo ouviu 48 famílias das comunidades de Maxixe, São Luiz e São Rafael.
Segundo o relatório, 64,6% dos entrevistados afirmaram que suas casas apresentam rachaduras. No Povoado Maxixe, 15 dos 16 moradores ouvidos relataram esse tipo de dano. Em relação às cisternas, cerca de 38% apresentavam rachaduras. Os pesquisadores destacam ainda que a maior parte desses danos, segundo os moradores, teria surgido há menos de um ano, coincidindo temporalmente com o início das operações da mina em 2025.
Entre os moradores que responderam sobre a origem das rachaduras, a atribuição às detonações da mineração foi praticamente unânime, especialmente na comunidade Maxixe. O documento ressalta, no entanto, que essa associação representa a percepção dos entrevistados e não configura comprovação técnica de causalidade.
O relatório foi produzido pelo Grupo de Pesquisa e Extensão Territórios do Semiárido – SEMIAR, do departamento de Geografia do CERES-UFRN, em parceria com o Grupo Seridó Vivo, com o Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM e com os moradores que colaboraram na construção do questionário e foram responsáveis pela sua aplicação nas comunidades.
Procurada, a comunicação da Aura Minerals, responsável pela exploração mineral de ouro na região, não retornou a demanda até a publicação da matéria. O espaço segue aberto.

Cotidiano modificado
Além dos danos estruturais, o diagnóstico mostra reflexos no cotidiano das comunidades. Mais da metade dos entrevistados afirmou sentir-se insegura ou muito insegura em relação à estrutura das próprias casas. O relatório relaciona esse cenário ao aumento de sentimentos como ansiedade, preocupação excessiva e medo, indicando um processo de adoecimento psicossocial associado à insegurança habitacional.
Outro dado considerado preocupante diz respeito à informação sobre riscos à saúde. Segundo a pesquisa, 81% dos moradores afirmaram não ter recebido orientações da empresa responsável pela mina, enquanto 94% disseram não ter recebido informações do poder público. A falta de esclarecimentos, segundo os pesquisadores, amplia a sensação de insegurança, especialmente diante da exposição constante à poeira produzida pela atividade minerária.
O levantamento também registra preocupações com a saúde respiratória, principalmente na comunidade São Luiz, onde moradores relataram sintomas como tosse frequente, rinite e dificuldade para respirar. Na área econômica, embora a maioria das famílias continue dependendo da agricultura familiar, 38% afirmaram que impactos na produção agrícola e na criação de animais têm provocado prejuízos e preocupações com a geração de renda.
