Fifa registra crescente número de atletas trocando nacionalidades para a Copa do Mundo

Uma movimentação incomum tem agitado o futebol mundial nos últimos meses. Em vez de transferências entre clubes, o destaque é a troca de nacionalidade por jogadores para seleção. Desde fevereiro, a Fifa disponibiliza uma plataforma que registra essas mudanças de associação dos atletas.
Com a proximidade da Copa do Mundo, o uso da plataforma aumentou consideravelmente. Já são quase cem trocas registradas desde março, incluindo jogadores que se inscreveram em seleções que disputaram repescagem para tentar garantir últimos postos no Mundial.
Um exemplo é o atacante Joël Piroe, de 26 anos, nascido na Holanda, com mãe holandesa e pai indo-surinamês. Em 17 de março, seu registro foi oficialmente transferido para a seleção do Suriname. Ele jogou na derrota do time contra a Bolívia na repescagem.
Há também casos de jogadores que retornam para defender seu país natal. A Áustria, que será adversária da Argentina no Grupo J, ganhou dois reforços importantes: Paul Wanner, meio-campista revelado pelo Bayern de Munique e que atua no PSV, e Carney Chukwuemeka, do Borussia Dortmund. Ambos nasceram na Áustria, mas até então jogavam por seleções de base de Alemanha e Inglaterra, respectivamente. Sem perspectivas nas seleções principais anteriores, optaram por integrar a equipe austríaca e devem disputar a Copa, já tendo participado de amistosos em março, com Chukwuemeka marcando um dos gols na vitória por 5 a 1 sobre Gana.
Luis Felipe Herdy, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio e doutorando em Relações Internacionais na PUC-Rio, explica que além da estratégia esportiva, esses movimentos têm relação com resgate da identidade e laços familiares.
Segundo ele, embora parte da decisão esteja ligada à maior chance de disputar grandes competições com seleções menos competitivas, há também um fortalecimento recente do discurso nacional e identitário nessas escolhas e da necessidade que países antes marginalizados sentem de se posicionar no cenário internacional.
Essa lógica tem sido usada especialmente por seleções africanas. O Marrocos, semifinalista da Copa de 2022 e adversário do Brasil no Grupo C em 2026, é um exemplo claro. A diáspora marroquina, espalhada por ligas europeias, sobretudo da Espanha e França, motivou a federação a buscar jogadores com raízes no país para o processo de “re-naturalização”. Em março, vários desses atletas foram integrados à lista de possíveis convocados para as Copas de 2026 e 2030, esta última tendo o Marrocos como sede.
Luis Fernando Filho, comentarista do podcast Ponta de Lança, destaca que para captar esses talentos as federações precisam apresentar projetos esportivos sérios que motivem os jogadores. Segundo ele, seleções como Senegal e Marrocos realizam um trabalho minucioso para identificar e integrar esses atletas, explorando inclusive comunidades de suas diásporas em países como Bélgica.
Outros casos recentes incluem Maurício, brasileiro do Palmeiras que se naturalizou paraguaio para disputar a próxima Copa, e Rani Khedira, irmão do campeão mundial Sami Khedira, que se filiou à federação tunisiana e já atuou em amistosos pela seleção.
A plataforma da Fifa que registra essas trocas é atualizada constantemente e também inclui dados sobre o futebol feminino.
Créditos: Globo