
Muçum, no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, enfrentou três enchentes em oito meses entre setembro de 2023 e maio de 2024, com a pior delas em 2024, considerada a maior tragédia climática na história do estado.
Durante a enchente mais grave, aproximadamente 80% da área urbana da cidade foi inundada. Cerca de 350 construções foram condenadas e o cemitério, com cerca de 3 mil jazigos, foi destruído. O Rio Taquari chegou a subir 26 metros, um nível jamais registrado, deixando uma rodovia completamente destruída. Apenas uma ponte foi autorizada a ser reconstruída no local original.
Após a tragédia, a prefeitura adotou uma decisão incomum no Brasil: proibiu novas construções na região mais atingida pelas enchentes. Essa área será transformada em um parque ecológico de 200 mil metros quadrados, com solo permeável e áreas de lazer, visando minimizar danos futuros, dado que enchentes são consideradas inevitáveis pelos especialistas.
Todas as edificações na zona mais afetada já foram demolidas, exceto um prédio de quatro andares que será removido em breve. Moradores aguardam a construção de novas moradias em áreas afastadas do rio, e alguns já se mudaram, como a dona de casa Sérgia Fernandes, que vive em um condomínio longe do Rio Taquari há cinco meses.
Empresas também receberam incentivos para transferir seus locais de trabalho. O empresário Cleber Pasqualetto comentou que há um prazo de 15 anos para pagamento do terreno, devido à valorização dos locais seguros na cidade.
Além de Muçum, outras seis cidades da região avaliam em legislar a proibição de reconstruções em áreas afetadas por enchentes.
No cenário nacional, o Tribunal de Contas da União aponta que o Brasil gastou nos últimos 15 anos três vezes mais com reconstrução do que com prevenção de desastres, destinando R$ 34,36 bilhões para resposta e recuperação, contra R$ 9,62 bilhões para prevenção.
Especialistas indicam que a adaptação é fundamental para reduzir os impactos dos eventos climáticos extremos. O climatologista Carlos Nobre destaca que milhões de brasileiros vivem em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos, situação insustentável segundo os estudos.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) informa que mais de 10 milhões de brasileiros vivem em zonas de risco. Regina Alvala, diretora do órgão, ressalta a necessidade da preparação das cidades para esses eventos.
Em contrapartida, cidades como Petrópolis, no Rio de Janeiro, apresentam desafios maiores. Em 15 anos, Petrópolis teve 430 mortes por deslizamentos e enchentes, além de mais de 28 mil desabrigados. Mesmo assim, cerca de 25% da população, aproximadamente 72 mil pessoas, permanece em áreas de risco. O prefeito Hingo Hammes reconhece que os obstáculos vão além da questão financeira.
A insegurança dos moradores é constante, como relata Michelle de Souza, residente da cidade desde a infância, que reflete a preocupação de milhares de brasileiros em áreas vulneráveis: “A gente não sabe o que a natureza tem preparado para a gente.”
Créditos: g1