Relatório da PF sugere tentativa de Vorcaro influenciar voto de Toffoli no STF

Um relatório da Polícia Federal (PF) levanta a suspeita de que o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, tentou influenciar o voto do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), em um julgamento importante para sua instituição financeira. A informação foi publicada pela revista piauí e consta em documento entregue pelo chefe da PF, Andrei Rodrigues, ao presidente do STF, Edson Fachin, mantido em sigilo até o momento.
O gabinete de Toffoli afirmou que o julgamento ocorreu inicialmente em pauta virtual, com o ministro acompanhando o voto do relator, e que na sessão presencial o voto foi mantido, sem alteração de posicionamento.
O caso envolvia um pedido bilionário de indenização de uma empresa do setor sucroalcooleiro contra a União, referente a prejuízos da década de 1980. Embora o Banco Master não fosse parte no processo, o resultado influenciaria significativamente a instituição, que possuía mais de R$ 10 bilhões em precatórios de usinas em seu balanço, segundo a revista.
Antes, Toffoli tinha histórico de apoiar usinas em casos de precatórios. Por outro lado, dias antes do julgamento em questão, o ministro votou a favor da União em outra ação do setor sucroalcooleiro, contrariando suas decisões anteriores. Essa mudança atingiu interlocutores de Vorcaro, entre eles o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que agia como articulador do banqueiro, e enviou a Vorcaro a mensagem: “Matou a gente”.
Em mensagens trocadas, o diretor jurídico do banco expressou a relevância do processo como paradigma para outras ações e sugeriu a necessidade de “movimentação”. Vorcaro confirmou estar ciente da mudança de voto de Toffoli, dizendo: “Toffoli virou o voto” e “Tô tratando aqui”.
O julgamento foi adiado após pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques e retomado em 1º de outubro de 2024, quando Toffoli votou a favor da empresa sucroalcooleira.
Vorcaro recebeu a notícia do resultado no mesmo dia com uma mensagem afirmando “Ganhamos”, à qual respondeu com um emoji de aprovação.
O relatório da PF aponta que os fatos precisam de análise aprofundada para conclusões definitivas. Destaca a relevância das mensagens trocadas próximo ao julgamento, em que se discute a necessidade de ações relativas ao processo.
Além disso, o documento indica suspeita de que Toffoli poderia ser beneficiário final de recursos enviados por Vorcaro a uma holding offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, paraíso fiscal, com cerca de R$ 35 milhões tendo passado pelo fundo Arleen, criado com aportes do Banco Master, antes de serem transferidos ao exterior.
O fundo Arleen foi sócio do resort Tayayá, no Paraná, propriedade da família de Toffoli via a empresa Maridt Participações. Vorcaro monitorava os aportes ao empreendimento e cobrava pagamentos, inclusive diretamente de Toffoli.
Em novembro de 2025, Vorcaro negociou a saída do Arleen, vendendo o fundo a um empresário ligado a Toffoli, orientando que a negociação fosse feita sem expor o nome do comprador. Posteriormente, o Arleen mudou seu regulamento para investir no exterior e transferiu todos os ativos para a holding nas Ilhas Virgens.
O relatório da PF sugere que, com base em vários elementos, Toffoli pode ter sido o beneficiário final ou dono de fato do fundo Arleen e seus ativos.
O GLOBO não conseguiu contato com Fábio Faria. Em fevereiro de 2026, o Metrópoles divulgou reportagens sobre as conversas entre Faria e Vorcaro, que negou tratar de ações judiciais envolvendo Toffoli ou relações institucionais com o banco. A defesa de Vorcaro ainda não se manifestou, e o espaço está aberto para esclarecimentos.
Créditos: O Globo