Driblando estereótipos, currais-novense cria plataforma que promete revolucionar acompanhamento de crianças na educação infantil

3 de junho de 2026
Beatriz Dantas aposta em sucesso da NARA para solucionar problemas da educação infantil

Pensar que estaria à frente de uma solução tecnológica era uma realidade distante para a empresária e mãe currais-novense Beatriz Dantas. “Achava que só dava pra estar nesse segmento se fosse jovem, recém-saída da faculdade e cheia de conhecimento em tecnologia”, disse. Hoje, é a mesma Beatriz que está à frente de uma proposta promissora: o Nara App, plataforma que promete gerar dados e relatórios para profissionais que atuam na educação infantil, necessidade percebida pela empresária na escola em que é sócia em Currais Novos/RN, no Seridó potiguar.

A empresária conta que a ideia surgiu da necessidade de acompanhar, de forma mais automatizada, o desenvolvimento das crianças desse nível. Durante três anos, ela procurou soluções no mercado, visitou feiras de educação por todo o mundo, conversou com profissionais da área e não encontrou nada que atendesse ao que imaginava. As professoras passavam horas observando crianças em sala de aula e, no fim de cada bimestre, precisavam transformar dezenas de registros soltos em relatórios detalhados para as famílias.

Foi então que Beatriz decidiu criar aquilo que não conseguia encontrar. O primeiro obstáculo surgiu logo no início. “Eu sabia o que queria, mas não conseguia traduzir isso para os programadores”, explicou. A empreendedora precisou aprender programação e inteligência artificial para se fazer entender. Quando finalmente conseguiu alinhar visão pedagógica e desenvolvimento técnico, nasceu a primeira versão da plataforma.

O nome da solução, Nara, também veio carregado de significado e representa uma sigla: Núcleo de Acompanhamentos e Registros Acadêmicos. No ano passado, o sistema começou a ser testado dentro da própria escola. A ideia era validar se funcionaria tanto para professoras que tinham facilidade tecnológica quanto para aquelas que tinham mais dificuldade com ferramentas digitais. “Os dois grupos conseguiram utilizar a plataforma sem grandes barreiras”, disse.

A lógica da NARA é baseada na observação cotidiana da criança. Em uma atividade simples, por exemplo, uma professora pode perceber que um aluno de dois anos evitou tocar no barro durante uma dinâmica sensorial. O registro dessa observação entra diretamente no perfil daquela criança. Ao longo do bimestre, o sistema cruza informações, identifica padrões de comportamento e aprendizagem e ajuda a construir relatórios individualizados para as famílias. 

Apesar de facilitar os processos com uso de tecnologia, se engana quem acha que o relatório se torna um padrão, sem profundidade no que está sendo observado. Os pais contam que, na verdade, passaram a contar com um diagnóstico muito mais profundo do desenvolvimento do seu filho desde que a plataforma foi instituída. “Quando recebi o relatório da minha filha, fiquei surpresa com a riqueza de detalhes. Me perguntei até como as professoras davam conta. No momento em que eu soube que existia um aplicativo para ajudar as ‘tias’, fiquei maravilhada”, disse Melca Medeiros, mãe da pequena Maria Augusta, aluna da instituição currais-novense da qual Beatriz é sócia.

Beatriz participa de eventos falando sobre empreendedorismo feminino

Boneca como solução

Uma das maiores inovações nasceu após necessidades dos profissionais que estão testando a plataforma. Foi em Fortaleza, no Ceará, quando uma escola informou que os professores não podiam utilizar celulares durante o expediente. A restrição poderia inviabilizar o uso da plataforma, mas foi dessa dificuldade que surgiu a “Narinha”, um dispositivo físico criado para facilitar os registros.

A pequena boneca tecnológica está sendo desenvolvida em parceria com pesquisadores ligados à UFRN e ao polo Embrapii, de Currais Novos. Com ela, a professora aperta um botão e grava em áudio aquilo que está observando em sala. O conteúdo é sincronizado posteriormente com o sistema. “É uma mão na roda. Na sala de aula, a gente tem muitas demandas com as próprias crianças. Pegar no celular para registrar seria inviável. Com a boneca, a gente ganha a possibilidade de registrar, com mais detalhes, aquilo que estamos vendo naquele momento”, descreve a professora Hosana Grasyella, aprovando a novidade.

Todo esse crescimento foi possível apenas após uma operação de crédito até então inédita no município. Inicialmente sem recursos suficientes para manter a programação da plataforma, Beatriz achou o financiamento ideal no Banco do Nordeste, com o FNE Startups. 

Ela lembra que o processo foi cheio de incertezas. “A modalidade ainda era novidade dentro da própria instituição financeira, então tive que ir me virando até a liberação do recurso. Eu não tinha mais como voltar, acreditava no meu produto e sabia que quando o investimento chegasse, o resultado viria”, avalia.

O crédito foi obtido em janeiro deste ano. A startup também avançou em etapas do programa Centelha, iniciativa de incentivo à inovação tecnológica. Com os recursos, a equipe cresceu. Hoje, a startup conta com profissionais da área pedagógica e da programação trabalhando diretamente no desenvolvimento da plataforma.

Narinha foi solução implementada para professoras registrarem, em tempo real, a evolução dos alunos observada em sala de aula

Empresária sim, mãe também

A origem da plataforma também está ligada à experiência pessoal de Beatriz como mãe. Ela percebeu que muitas professoras da educação infantil levavam trabalho para casa diariamente, passavam madrugadas produzindo relatórios e acabavam perdendo tempo de convivência com os próprios filhos.

Foi dessa percepção que nasceu parte do propósito da startup. “Eu me apaixonei pelo problema, não pela solução”, afirma. A frase resume a forma como ela enxerga o crescimento acelerado da empresa. Mãe de duas crianças, ela admite que o equilíbrio nunca acontece por completo. Há semanas em que o trabalho exige mais. “A gente aprende a conviver com essa sensação de não conseguir dar conta de tudo ao mesmo tempo. Vai ter dia que vai sobrar em um e faltar em outro, mas é o que sou. Mãe, empresária, tudo ao mesmo tempo”, disse.

Talvez porque, no fundo, a NARA tenha nascido exatamente do princípio de tornar a rotina de outras mulheres um pouco menos pesada. Hoje, a plataforma está em fase de validação em cinco escolas: duas em Natal, uma em Goianinha, uma em Recife e outra em Fortaleza. O lançamento oficial da plataforma está previsto para acontecer durante a ExpoEduc, em julho, na capital potiguar. A meta da startup é alcançar 100 escolas cadastradas até 2027.

*Colaborou Ismael Medeiros

Mãe de dois filhos, Beatriz se divide entre a rotina materna com as responsabilidades do empreendedorismo
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