Livro sobre preconceito contra o Nordeste é finalista do Vladimir Herzog

25 de setembro de 2026

“Até que você entrega nos prazos, apesar de ser do Nordeste.” A frase poderia passar como uma piada ruim, daquelas que se dissolvem no ambiente de trabalho depois de um constrangimento. Para o jornalista e pesquisador potiguar Octávio Santiago, porém, ela ficou. Assim como outra: “mas nem cara de nordestino você tem”.

Foram comentários desse tipo, ouvidos por ele e relatados por amigos e familiares, que ajudaram a transformar um incômodo cotidiano em uma pergunta de pesquisa: de onde veio a ideia de que existe um jeito de ser nordestino e, sobretudo, de que esse jeito pode ser associado ao atraso, à incapacidade, à pobreza ou à ignorância?

A pergunta atravessou uma pesquisa de doutorado realizada na Universidade do Minho, em Portugal, e deu origem ao livro Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste, publicado pela Autêntica em 2025. Com 256 páginas, a obra investiga a construção histórica dos estereótipos associados à região e aos nordestinos, relacionando discursos políticos, interesses econômicos, racismo e formas de representação na literatura, no audiovisual e na imprensa.

Agora, o trabalho de Octávio está entre os três finalistas da categoria Livro-Reportagem do 48º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, ao lado de Agressão, de Ana Paula Araújo, e Como nasce um miliciano, de Cecilia Olliveira. A escolha do vencedor acontece em sessão pública no dia 30 de setembro, no Instituto Vladimir Herzog, em São Paulo.

Mais do que um reconhecimento literário ou jornalístico, a presença do livro na premiação cria uma conexão direta com a própria pergunta que move a investigação: quem pode falar, quem pode ser representado e quem historicamente foi colocado na posição de ser apenas objeto do olhar dos outros?

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